{"id":16,"date":"2025-05-27T16:22:20","date_gmt":"2025-05-27T19:22:20","guid":{"rendered":"https:\/\/baaa.com.br\/?p=16"},"modified":"2025-05-29T20:57:00","modified_gmt":"2025-05-29T23:57:00","slug":"a-corrupcao-parlamentar-pode-invalidar-as-leis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/baaa.com.br\/index.php\/2025\/05\/27\/a-corrupcao-parlamentar-pode-invalidar-as-leis\/","title":{"rendered":"A corrup\u00e7\u00e3o parlamentar pode invalidar as leis?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Anderson Bellini Aloisio<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a in\u00fameras den\u00fancias que cotidianamente p\u00f5e \u00e0 calva o problema da corrup\u00e7\u00e3o no Poder Legislativo Federal, a suposta compra de votos de parlamentares desencadeia conseq\u00fc\u00eancias jur\u00eddicas que n\u00e3o podem escapar \u00e0 reflex\u00e3o dos operadores do Direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo como fun\u00e7\u00e3o prec\u00edpua legislar, cada componente do Poder Legislativo assume legitimidade atrav\u00e9s do voto popular, em que o povo lhe roga para que emita suas opini\u00f5es e exer\u00e7a seu mandato de acordo com suas promessas de campanha e sua plataforma pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Quest\u00e3o totalmente diferente do (infeliz e j\u00e1 costumeiro) desatendimento das promessas de campanha ou do abandono das plataformas pol\u00edticas, \u00e9 a da extirpa\u00e7\u00e3o da autonomia da vontade parlamentar, atrav\u00e9s da compra de votos.<\/p>\n\n\n\n<p>Remonta ao in\u00edcio dos tempos da ci\u00eancia jur\u00eddica que as manifesta\u00e7\u00f5es do pensamento e da vontade somente ter\u00e3o validade quando, o emissor desta vontade, o fa\u00e7a de maneira livre, desimpedida, sem falsos motivos, dolo, simula\u00e7\u00e3o ou qualquer outro v\u00edcio do consentimento, obedecendo t\u00e3o-somente os ditames de sua consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o parlamentar n\u00e3o se conduz de acordo com sua consci\u00eancia e, assim, afasta-se dos poderes que o mandato popular lhe outorga, agindo, n\u00e3o de acordo com suas convic\u00e7\u00f5es, mas, recebendo favores para votar ou se conduzir em certo sentido, ele, parlamentar, emite vontade viciada, maculada, incompat\u00edvel com o mandato recebido e, portanto, incapaz de gerar efeitos jur\u00eddicos v\u00e1lidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta observar o que acontece nas diversas searas do Poder P\u00fablico onde, por exemplo, se um membro do Executivo recebe valores para determinar a vit\u00f3ria de certo participante em um processo licitat\u00f3rio, este certame \u00e9 inv\u00e1lido; se determinado membro do Poder Judici\u00e1rio recebe valores para sentenciar em favor de uma das partes, tal ato decis\u00f3rio encontra-se viciado, igualmente merecedor de nulifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que haveria de ser diferente com os membros do Legislativo que, porventura, tenham votado em determinado sentido mediante o recebimento de valores\/favores? Ou algu\u00e9m ainda duvida de que o recebimento de valores pelo magistrado invalide a senten\u00e7a; pelo \u00f3rg\u00e3o licitante, invalide a licita\u00e7\u00e3o; pelo parlamentar, invalide e deslegitime suas manifesta\u00e7\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>A invalidade de tais manifesta\u00e7\u00f5es decorre do fato de que, nos casos mencionados, n\u00e3o se tem a vontade livre do magistrado; n\u00e3o se tem a vontade livre do \u00f3rg\u00e3o licitante; n\u00e3o se tem a vontade livre do parlamentar que, fora desta liberdade essencial e inerente \u2013 al\u00e9m de estar divorciado da \u00e9tica &#8211; n\u00e3o est\u00e1 legitimado no mandato recebido. Todas estas manifesta\u00e7\u00f5es citadas s\u00e3o evidentemente inv\u00e1lidas sob a lupa jur\u00eddica. E isto \u00e9 assim \u2013 e sempre foi \u2013 porque n\u00e3o h\u00e1 como ser diferente!<\/p>\n\n\n\n<p>Assumindo-se tais postulados que, salvo engano de monta, mostram-se de f\u00e1cil e basilar compreens\u00e3o, imp\u00f5e-se confront\u00e1-los com a realidade do momento: caso se comprove que determinados parlamentares votaram mediante recebimento de propina, como ficam as normas por eles deliberadas?<\/p>\n\n\n\n<p>Se tais vontades s\u00e3o inv\u00e1lidas, como ficam as leis que entraram em vigor mediante vota\u00e7\u00e3o com recebimento de valores? Estariam tais normas legitimadas? Se tal situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 vem acontecendo a longo tempo, pergunta-se: o novo C\u00f3digo Civil foi votado desta forma? E a Emenda Constitucional n\u00ba 45? [1] E todos os outros atos e normas que nas casas legislativas tramitaram? Como ficam? S\u00e3o v\u00e1lidos? Est\u00e3o em vigor?<\/p>\n\n\n\n<p>Tal racioc\u00ednio, que leva \u00e0 invalidade das manifesta\u00e7\u00f5es de vontade dos parlamentares que receberam propina &#8211; l\u00f3gico e compreens\u00edvel at\u00e9 para os menos versados em mat\u00e9ria jur\u00eddica &#8211; demonstra, enfaticamente, o verdadeiro caos que a corrup\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica pode nos envolver. Se n\u00e3o percebermos a responsabilidade na elabora\u00e7\u00e3o das leis, instrumento absolutamente essencial para a preserva\u00e7\u00e3o da ordem, estaremos, sem d\u00favida, semeando a desordem. Perdendo-se o respeito pela lei, n\u00e3o h\u00e1 muito mais o que se perder na democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o que leva ao descr\u00e9dito das pr\u00f3prias normas do Pa\u00eds, est\u00e1, para o sistema democr\u00e1tico, como os cavaleiros do apocalipse est\u00e3o para o fim dos tempos: ambos s\u00e3o arautos das sombras, prenunciando o imp\u00e9rio do caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Colhem-se, na antiguidade cl\u00e1ssica, normas que determinavam que o funcion\u00e1rio p\u00fablico corrupto deveria ser amarrado em um saco, juntamente com um animal feroz, sendo, depois, lan\u00e7ado nas \u00e1guas de um rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A norma dram\u00e1tica, no entanto, cumpre uma fun\u00e7\u00e3o importante: talvez sirva para lembrar-nos de algo que os antigos sabiam muito bem &#8211; a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 coisa s\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Reforma do Judici\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Anderson Bellini Aloisio Em meio a in\u00fameras den\u00fancias que cotidianamente p\u00f5e \u00e0 calva o problema da corrup\u00e7\u00e3o no Poder Legislativo Federal, a suposta compra de votos de parlamentares desencadeia conseq\u00fc\u00eancias jur\u00eddicas que n\u00e3o podem escapar \u00e0 reflex\u00e3o dos operadores do Direito. 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